Vida de Imigrante

2018 finalmente chegou ao fim. O que eu fiz até aqui?

27 de dezembro de 2018

Essa vida de imigrante não é nada fácil, mesmo. Eu mesma nem sabia que seria tão difícil. Devo dizer que 2018 se dividiu entre o pior e o melhor ano que tive, desde que cheguei aqui. Muito em relação às minhas expectativas, metas e a realidade em ter que começar tudo do zero, seguido por frustrações diárias e saudade da família.

Quero fazer nesse post um mix entre uma retrospectiva, metas e um lembrete para 2019, em voltar sempre a esse post e entender que por mais que esteja tudo dando errado, dá tudo certo no final.

Janeiro começou cheio de metas e muita convicção de que eu conseguiria ingressar no mercado de trabalho norueguês. Apostei todas as minhas fichas em vagas publicadas em inglês, na esperança de que eu conseguiria pelo menos uma oportunidade como vikar (temporário), mas infelizmente (ou felizmente?!), a realidade foi outra. Entre janeiro e março participei de diversos processos seletivos, sendo que em três deles fui pra fase final e tomei um banho de realidade na cara: não fui contratada em nenhuma delas porque não falava o suficiente de norueguês. Falar que queria trabalhar em norueguês, em inglês, não era e nem deveria ser o suficiente. Quer trabalhar em norueguês? Comece aplicando e fazendo entrevistas em norueguês, só assim te levarão a sério. E nesse momento, parei de aplicar pra qualquer vaga. Decidi focar no idioma. E foi a melhor coisa que eu fiz.

Fevereiro foi um mês extremamente difícil. Eu estava de saco cheio da escola. Do curso. Do idioma. Dos meus colegas. De tudo. Sério, eu queria ficar na cama o dia inteiro. Não tinha vontade de fazer nada. Não quero entrar em detalhes, mas tive várias desavenças com alunos do curso de norueguês, por divergências de crenças, opiniões e caráter mesmo, não foi fácil. Mas jamais pensei em desistir. Aprender norueguês foi a minha base pra tudo em 2018, e entendi isso mais pro fim do ano. Em fevereiro também fiz uma das provas obrigatórias impostas pela imigração, em uma matéria que se chama samfunnskunnskap. Eu passei. E passei com 100% dos acertos na prova feita em norueguês! Fiquei muito orgulhosa em saber que eu estava sim caminhando pro melhor aprendizado da língua, e nesse momento comecei a me preparar para fazer a prova de proficiência no fim do ano.

Março veio e trouxe uma viagemzinha bem curta para Gotemburgo (e Varberg). Uma das minhas metas para 2018 era conhecer um lugar novo, já que passei 2017 toda presa na Noruega, por conta do meu visto e do curso de norueguês. Foi ótimo respirar outros ares, conhecer um pouquinho de onde o meu melhor amigo mora e trazê-lo conosco pra casa, para curtir mais um Inferno Metal Festival por aqui.

Essa foi a minha primeira vez como imprensa em algum evento. Foi com certeza o ponto do meu ano, ter o meu trabalho como “youtuber” reconhecido pelos organizadores do fest, que apostaram nos vídeos que produzo com tanto carinho, me dando a oportunidade de curtir esse fest mais um ano, ainda mais nesse momento bem difícil, financeiramente falando. Foi ótimo. Assisti a 22 shows e ter meus amigos por perto fez tudo ser ainda mais especial. Também foi ótimo pra conhecer várias das pessoas que me conheceram no youtube e vieram ao fest usando os meus vídeos como direcionamento. Esses encontros tornam essa vida virtual um pouco mais paupável, e nessa fiz amigos incríveis que mesmo lá do Brasil, continuaram mantendo contato durante o resto do ano.

Abril veio com um pouquinho de tensão na bagagem. Era hora de renovar o meu visto. É sempre um momento de agonia, ter que entrar numa fila sem saber quando vai sair, esperar pela boa vontade de alguém que vai ler papel por papel e decidir se posso ou não continuar morando aqui. E por incrível que pareça, eu apliquei em um dia e dois dias depois já tinha a confirmação de aprovação no meu e-mail. Foi bizarramente rápido. Devo dizer que a sensação em poder respirar em paz um pouquinho por dois anos, é ótima. Agora, só em 2020.

Maio. Maio foi difícil. Depois de vários exames, tive a confirmação de que sou intolerante ao glúten. Foi um balde de água fria na minha vida. E isso fez com que a minha alimentação desandasse de vez. As pessoas acham que alimentos sem glúten são todos naturebas e fazem bem pra nossa saúde. Até pode seria ser verdade, se os mesmos não tivessem o dobro de calorias. Isso influenciou demais no meu peso, principalmente no decorrer do ano. Óbvio que a culpa não é da falta de glúten na minha dieta, mas ter que viver uma vida cheia de restrições pra tudo gerando um stress que as pessoas nem fazem idéia de que se é possível ter, porque absolutamente tudo o que você consome, tem glúten. E é um saco não poder ter a liberdade de se comer o que quer, quando se quer, ainda mais num país onde a base da dieta das pessoas é o pão. Mas tudo bem, já passou, estou praticamente adaptada e sempre aprendendo diariamente sobre o assunto.

Em maio também, no finalzinho do mês, comecei a trabalhar num summer job. Precisava de dinheiro, de experiência na Noruega, de levantar da cama acreditando que estou contribuindo com a sociedade e tudo mais. Passei semanas chorando, sem vontade de fazer nada, beirando uma depressão (eu acho, pelo menos) e por fim, graças ao Thomas, tive forças em acreditar que as coisas iam melhorar, eu ia conseguir me inserir na sociedade de alguma forma. Trabalhar, mesmo que por três meses durante o verão, me fez tão bem, mas tão bem, que eu comecei a ver uma pequena luz no fim do túnel.

Junho, julho e agosto passaram voando. Em junho, fomos ao Tons of Rock, como imprensa novamente e a sensação de trabalho reconhecido encheu meu coração novamente. Mais shows incríveis, com pessoas incríveis e divertidas. Teve também Copa do Mundo, meu evento esportivo favorito da vida. Não deu muito boa pro Brasil, nem pra Alemanha e pra Islândia, seleções que gosto de torcer geralmente, mas eu amo o fato de que tem jogo de futebol todos os dias, e aproveitei muito esse mês.

Em julho fizemos uma viagem surpresa pra Trondheim. Mais um lugar novo na minha lista de metas pra 2018. Foi incrível, simplesmente pelo fato de que eu amo viajar de carro pela Noruega. Sinto a natureza dando tapa na minha cara a todo instante. Morar na cidade as vezes nos tira um pouco essa sensação do quanto esse país é lindo, e essas viagens me fazem resgatar o sentimento de gratidão em ter a oportunidade de morar num país tão maravilhoso como esse.

O que eu fiz em agosto? Trabalhei, haha. Foi o último mês do meu summer job, e eu nem vi passar. Me preparei pra voltar a escola. Bem de má vontade, mas completamente focada em saber que seriam apenas três meses e meio de aula. Lá no comecinho de 2018, coloquei como meta tirar pelo menos A2 nas provas, e as coisas foram caminhando de uma forma que acabei aplicando pra prova mais difícil, nível B1-B2. Não sei ainda o resultado, vem só em 2019, mas acredito que essa meta também foi cumprida com sucesso. Juntando o fato de que completei também as 550 horas obrigatórias em norueguês impostas pela imigração. Sensação de dever cumprido!

Setembro foi um mês que também passou voando. Foi o mês que fiz a minha primeira entrevista de trabalho em norueguês. Resgatei um pouco da auto estima perdida lá no comecinho de ano, depois das frustrações em não conseguir absolutamente nada no mercado de trabalho, ter conseguido fazer uma entrevista em norueguês me deu forças e esperança de que as coisas estavam sim caminhando pro melhor. Foi fácil? Não, é viver um dia após o outros na esperança de que vai melhorar. E melhorou. Foi em setembro também que fizemos nossa viagem de outono pra Finlândia e pra Estônia. Conhecemos lugares incríveis, andamos num cruzeiro pela primeira vez, bebemos cerveja às 10h da manhã e mais um monte de coisas divertidas que vai ficar pra sempre na nossa memória. Eu amo conhecer o mundo ao lado do Thomas, meu companheiro favorito pra tudo, e são nesses momentos tenho a certeza de que fiz a escolha certa.

Em outubro a minha vida aconteceu. Eu apliquei pra prova de norueguês e também recebi a notícia de que tinha conseguido o trabalho (da entrevista em norueguês). Um trabalho temporário, porém full time, na minha área, em Oslo e numa agência de publicidade. Era melhor do que eu poderia imaginar! Obviamente disse sim, e me despedi do curso de norueguês. A sensação de saber que não voltaria naquela escola tão cedo foi mágica. Passei por momentos horríveis ali, achei que nunca ia conseguir andar com as minhas próprias pernas, sem ajuda de ninguém, consegui o que eu sempre quis desde o primeiro dia que eu pisei aqui. Foi incrível!

Novembro foi o mês mais tenso do ano, sem sobra de dúvidas. Foi quando fiz a prova em si, e também foi um mês de aprendizado diário no trabalho. Eu não fazia idéia se daria conta do recado. Estava há quase dois anos fora do mercado, ter que entender tudo em norueguês, me expressar em norueguês e ainda assim dar o meu melhor diariamente, além de entrar numa nova rotina e entender que agora a minha vida seria assim. Foi cansativo, mas valeu a pena.

E finalmente dezembro chegou. O mês do meu aniversário. Fiz 30 anos, e me sinto com uns 60, hahahahah. Eu senti muita muita mas muita saudade da minha família nesse dia. Recebi uma notícia horrível, onde uma das pessoas que mais amo no mundo está passando por um problema sério de saúde. Dói muito não estar lá, nem que seja pra dar a mão, sabe? Mas sei que vai dar tudo certo no final. Nesse mês também foi a hora de voltar pra Alemanha, em uma viagem em família, voltei a Frankfurt depois de 4 anos e meio, foi mágico. Eu simplesmente amo a Alemanha. E de quebra ainda conheci os mercadinhos de natal típicos germânicos. Espero repetir a dose em 2019!

Em dezembro também recebi a notícia de que eu mudaria o meu contrato temporário para um fast jobb em 2019. Meu salário melhorou e junto veio a estabilidade que eu sempre sonhei em ter. Não tenho data de fim de contrato. Eu e o Thomas podemos finalmente começar a organizar a nossa vida, agora que ambos estamos financeiramente assegurados. Essa era a minha maior meta. Entrar no mercado de trabalho, começar o trabalho de formiguinha para reconstruir a minha carreira na Noruega, e foi mais rápido do que eu imaginava. Assinar o contrato fez com que toda a frustração, choro, saudade, valessem a pena. Eu estou conquistando o meu espacinho por aqui, por mérito meu e sinto muito orgulho disso.

E pra finalizar, o melhor show de 2018? Foi sem sombra de dúvidas ver o Amenra tocando dentro de uma igreja em Oslo. Eu nem consegui compartilhar em lugar algum, pois entrei em transe e nem acreditava no que estava vendo, sentindo e ouvindo. Foi demais. Assisti a 52 shows em 2018, e espero que em 2019 eu assista ainda mais. É pra isso que a gente gosta de trabalhar, né?! Hahaha

A listinha de metas pra 2019 já está feita. Não vou verbalizar tudo por aqui, mas, uma coisa é certa: eu preciso ir ao Brasil em 2019!

E você, o que fez esse ano e o que planeja pra 2019? 🙂

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Comentários

  • Responder Tarciso Lopez Montanha 2 de janeiro de 2019 at 06:28

    Olá Stephanie, conheci seu canal no YouTube no último dia do ano de 2018 e confesso que o mesmo foi um achado para mim. O primeiro vídeo que assisti foi a tour ao Museu do Black Metal, estou passando por um momento muito difícil na minha vida, passei essas festas de fim ano só em meu apartamento com grande angústia e sofrimento por alguns problemas de saúde, hoje assisti tantos vídeos no seu canal que resolvi conhecer seu blog. Tive uma surpresa bem grande ao saber que você nasceu em São Bernardo e morava em Santo André, sou do Sul do país mas esse ano completei 18 anos morando em São Bernardo, já trabalhei em Santo André também e atualmente trabalho em São Caetano e São Paulo. Foi muito legal ver sua retrospectiva de 2018 e saber que você superou vários obstáculos que pareciam intransponíveis para uma estrangeira, parabéns pelo seu canal e pelas suas conquistas, você e o Thomas formam um lindo casal, tenham a certeza de que muita gente torce por vocês, desejo a vocês tudo de bom e que em 2019 vocês conquistem todos os seus objetivos, muito amor saúde e prosperidade para vocês, seus vídeos passam uma energia muito boa, pode apostar nisso, por favor continue com seu trabalho, passei essa virada de ano com a companhia de vocês rsrs um grande abraço.

    • Responder Stephanie 2 de janeiro de 2019 at 08:55

      Oi Tarciso, fico feliz em saber que temos várias coisas em comum 🙂 o mundo é muito pequeno, né? Eu espero de coração que você supere essa fase difícil que está passando, sei bem como é não ter forças pra nada, mas uma hora passa! As vezes precisamos ir ate o fundo do poco pra resgatar as forças de continuar, mas vai dar tudo certo! Espero que seu 2019 seja incrivel, um dia após o outro e bora! 😀 beijos!

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