Estudando Norueguês Vida de Imigrante

O que eu achei do Voksenopplæring: a minha experiência

5 de novembro de 2018

Eu achei que ia demorar mais pra fazer esse post aqui no blog, mas acontece que (por um ótimo motivo) precisei interromper os meus estudos de norueguês no Voksenopplæring um mês antes do previsto. Como eu recebo várias perguntas sobre a minha experiência, se eu gostei da escola, do método de ensino, os problemas que tive e tudo mais, resolvi fazer esse post como uma conclusão da minha experiência com o Voksenopplæring na Noruega. Deixando claro que essa é a minha opinião pessoal, baseada nos 13 meses em que estudei no curso. Senta que lá vem textão!

Eu comecei a estudar norueguês logo depois do meu visto ter sido aprovado, em agosto de 2017. Eu realmente acreditei que eu seguiria todo um cronograma de ensino, baseado no fato de que (eu achava) eu não falava nada de norueguês. Mas, infelizmente (ou felizmente?) não foi bem assim que as coisas aconteceram. Logo que eu iniciei as aulas, percebi que o curso em que eu fui colocada era para pessoas que não tinham nem conhecimento do alfabeto norueguês. Não julgo a escola por isso, até porque foi um erro meu não ter entendido que eu tinha noções sim da língua, e que deveria ter começado em um nível mais avançado e de ritmo mais acelerado.

Uma coisa boa do Voksenopplæring aqui de Moss, é que independente da sala que você esteja, a cada três capítulos finalizados do livro usado, fazemos um teste e esse teste pode determinar muita coisa na nossa vida. Eu, por exemplo, mudei de turma três vezes por conta do meu resultado nos testes. E foi aí que comecei a me dar conta do que mais estava me incomodando na escola. Quando eu fazia um teste e acertava cerca de 80% a 90% das questões, na minha cabeça, significa que eu estava no nível correto, pois absorvi o conteúdo passado em sala e provei que aprendi por meio do teste. Mas, as coisas funcionam de forma de diferente. A maioria dos alunos sempre ficam na faixa entre 50% e 60% de acertos, o que faz com que o professor entenda que eu, por exemplo, estou num nível acima deles, e que eles devem continuar na mesma classe pra aprender (de novo?!) aquilo que já tinha sido passado durante as semanas anteriores, ou seja, tudo na base da repetição. Na minha cabeça, sempre que eu trocava de sala, pensava comigo mesmo “nossa, agora sim estou no nível correto”, e depois de um tempo percebia que meus colegas de classe não correspondiam ao nível que deveriam estar, e a escola jamais os mudaria para um nível inferior, fazendo com que quem se destacasse, avançasse cada vez mais rápido.

E aí vem mais um ponto negativo que acabou me deixando bem incomodada durante o período em que estudei por lá. A impressão que eu tenho é que a escola quer que você saia logo, alcance o nível mínimo de sobrevivência (que é o B1) e vá embora, viver a sua vida. Na escola de Moss, se você não faz parte do programa de introdução, você não recebe nenhum tipo de ajuda com conselheiros ou pessoas que podem te ajudar a direcionar a sua vida, esse “benefício” fica exclusivo para quem imigrou pelo programa de introdução. E isso é bem chato. Não consigo entender porque eu mereço menos informação e ajuda, só por ter imigrado com reunião familiar, do que uma pessoa que imigrou sozinha, mas que recebe um salário para ir para a escola e se estabelecer dentro da sociedade.

O que me leva ao terceiro ponto negativo dessa experiência, que foi ter que me relacionar com pessoas que não tinham o mínimo interesse em se integrar na sociedade norueguesa. Estavam na escola simplesmente pelo fator econômico, postergando qualquer tipo de avanço no idioma, ficando em classes mais baixas (mesmo se comunicando bem no idioma), só para se manter sem a necessidade de fazer a prova, fazer um praksis e ir viver a vida como qualquer outro cidadão. Ouvi isso da boca de muitos com os quais estudei, e é revoltante, quando você não recebe o mínimo de ajuda (intelectual, não financeira) pra planejar a sua vida na Noruega. Junto com esse fator, vem o comportamento completamente agressivo a pessoas que pensam de forma contrária a deles. Eu sofri bastante durante três ou quatro meses no curso, por ter caído em salas onde a maioria esmagadora da turma era só de um determinado país e além de ter que ouvir piadas e comentários homofóbicos, racistas e machistas diariamente (afinal, aprendemos sobre a sociedade norueguesa enquanto aprendemos norueguês), fui rejeitada em muitos momentos porque determinados alunos se recusavam a sentar comigo para fazer algum exercício. Por que? Porque eu nunca me calei durante as aulas, sempre expus o meu ponto de vista e claramente algumas pessoas não sabem conviver com as diferenças. Os professores nunca os repreenderam, e eu nunca entendi o motivo. Sempre se calaram diante dos absurdos falados durante temas polêmicos, onde deveriam no mínimo expôr o ponto de vista norueguês e como as pessoas encaram determinados assuntos por aqui. Isso faz parte da integração.

Mas, por outro lado, apensar de ter bastante comentários negativos sobre o ensino, devo dizer que sem ele eu não estaria falando nem 20% do que eu falo hoje. Eu aprendi muito. Deixei minhas decepções de lado e usei o curso a meu favor, como um instrumento que eu precisava para deslanchar no aprendizado do idioma. O método de ensino foi eficaz, com muita repetição mas ao mesmo com bastante prática de gramática. Senti falta de praticar a fala, por muitos dias fui a escola calada e voltei mais quieta ainda, sem ter tido a oportunidade de falar nadinha durante as aulas. Em janeiro de 2018, mudei para uma turma onde eu era diariamente desafiada, eu precisava escrever textos semanais e isso me ajudou muito a melhorar a minha gramática, tanto na escrita quanto na fala. As aulas muitas vezes eram dinâmicas, com vídeos, jogos e exercícios diversos para que a gente não ficasse entediado só absorvendo gramática por três horas por dia.

Quando voltei de férias, em agosto de 2018, comecei a estudar na melhor classe da escola, com o melhor professor. Sabe porque? Porque era a única turma onde todos os alunos estavam interessados em aprender norueguês e focados em fazer a prova de proficiência. Eu realmente acho que quem faz a escola é o aluno, se eu tivesse começado o curso nessa turma, eu teria prosperado muito mais, evitado muitas frustrações e teria usufruído do curso da melhor forma possível.

Na minha última semana no Voksenopplæring, o meu professor começou uma conversa com cada um, que aparentemente parecia acontecer natural na turma dele. Ele ia traçar um plano de estudos, de carreira e de futuro, pros alunos. Eu fui a primeira a participar, até porque eu precisava avisar que não iria mais estudar lá, e quando ele pegou a minha ficha da escola, onde teoricamente eu deveria ter tido um acompanhamento desde o começo, ela estava completamente vazia. Sem objetivos, nada. Pra ser bem sincera, me senti levemente negligenciada pela escola. Tive diversos problemas com alguns alunos, quando tentei pedir um conselheiro ou algo do tipo, quando eu pedi um “praksisplass”, em todos esses momentos eu recebi a resposta de que apenas aqueles do programa de introdução tinham direito, e no fim das contas eu poderia ter tido uma experiência diferente, acredito que mais positiva de maneira de geral, dentro da escola.

13 meses depois, estou aqui, me preparando para fazer a prova de proficiência em norueguês em algumas semanas mas completamente aliviada de ter terminado com esse capítulo na minha vida. Eu estava realmente no meu limite. Serei injusta se eu disser que não aprendi norueguês. Eu aprendi sim, e muito. O suficiente pra dar o próximo na minha vida como imigrante aqui na Noruega. Eu quis escrever esse post porque eu acho que é importante ressaltar que por mais que tenhamos direito ao ensino da língua gratuito, nem tudo são flores como algumas pessoas pensam.

Volto pra contar como foi fazer a prova. Vou (tentar) me preparar sozinha nas próximas semanas, o que vai ser um desafio porque a minha rotina vai mudar completamente. Foco, que vai dar tudo certo!

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